political writings

Français    English    Italiano    Español    Deutsch    عربي    русский    Português

Entrevista com conde Hans-Christof von Sponek
A implicação da ONU em crimes de guerra

Para o antigo secretário adjunto da ONU, Hans-Christof von Sponeck, as Nações Unidas, longe de velarem pelo respeito pelo direito internacional e pela consolidação da paz, tornaram-se um factor de injustiça. As sanções impostas ao Iraque de Saddam Hussein provocaram um desastre humanitário; e tratados como o da não proliferação de armas nucleares são utilizados para assegurar o domínio de uns e ameaçar outros. Já é tempo de mudar radicalmente de sistema.

16 de Março de 2007
JPEG - 26.6 kb

Hans-Christof von Sponeck


O conde Hans-Christof von Sponeck, nascido em Bremen em 1939, trabalhou durante 32 anos no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Nomeado em 1998, por Kofi Annan, para o posto de coordenador humanitário das Nações Unidas no Iraque, com a categoria de secretário-geral adjunto, Sponeck demitiu-se em Março de 2000 em sinal de protesto contra as sanções que haviam reduzido o povo iraquiano à miséria e à fome.

Sílvia Cattori : No seu livro "Um outro tipo de guerra: As sanções da ONU ao regime do Iraque" [1], acusa o Conselho de Segurança de ter traído a Carta das Nações Unidas . Poderia dar-nos alguns exemplos precisos de situações em que o Secretariado das Nações Unidas actuou de modo condenável?

Hans von Sponeck : O Conselho de Segurança deve actuar conforme a Carta das Nações Unidas; não deve esquecer a Convenção sobre os direitos da criança, bem como os aspectos gerais desse tipo de convenções. Quando o Conselho de Segurança sabe que as condições de vida no Iraque são inumanas, que as pessoas de todas as idades se encontram numa profunda desgraça, não por causa de um ditador, mas por causa da sua própria política de acompanhamento no quadro do programa "petróleo por comida", e por causa das excepções humanitárias, e ainda assim nada faz – ou não faz o suficiente – para proteger as populações das más consequências da sua política, podemos e devemos afirmar que o Conselho de Segurança é culpado. E é culpado em particular pelo forte crescimento das taxas de mortalidade no Iraque.

Como prova disso, vejamos a seguinte situação: nos anos oitenta, sob o governo de Saddam Hussein, a UNICEF revelava que 25 crianças em mil, menores de cinco anos, morriam no Iraque por diversas razões. Durante os anos de aplicação das sanções, entre 1990 a 2003, verificou-se um rápido crescimento da mortalidade de crianças com menos de cinco anos: passou para 56 em mil, logo no início dos anos 90, e atingiu as 131 em mil, nos primeiros anos do novo século. Qualquer um de nós pode facilmente compreender que esse aumento da mortalidade entre as crianças foi consequência das sanções; parece-me evidente que o Conselho de Segurança preferiu ignorar as consequências da sua política no Iraque, sob pressão dos principais intervenientes envolvidos, em particular, os Estados Unidos e o Reino Unido.

Silvia Cattori : Como é que o Conselho de Segurança pôde negligenciar as consequências humanitárias das sanções contra o Iraque, e ao mesmo tempo adoptar outras resoluções – a 1559, por exemplo – que abriram caminho ao bombardeamento de populações civis? Isso levar-nos-ia a dizer que o Conselho de Segurança e o Secretariado da ONU se tornaram, nos últimos anos, os principais responsáveis pelas catástrofes humanitárias?

Hans von Sponeck : Eu diria que apenas os ignorantes, ou aqueles que não aceitam a derrota, continuam a fazer de conta que o drama humanitário no Iraque não se deve, em grande medida, a uma política errada, a uma política de punição. O povo iraquiano foi punido simplesmente porque se encontrava sob a direcção do governo de Bagdad, apesar de totalmente inocente.

Sílvia Cattori : Os nossos responsáveis políticos, presentes em todas as instâncias internacionais, sabiam perfeitamente que essas sanções tinham consequências desastrosas. Podemos, então, dizer que ao calarem-se, eles aceitaram que os civis morressem de fome?

Hans von Sponeck : Não podemos esquecer que houve silêncio, mas também conivência, apoio, ou melhor, um esforço deliberado para se criar o género de condições que prevaleceram no Iraque durante 13 anos de sanções. Há, de facto, diferentes graus de responsabilidade política. Não se trata apenas do Primeiro-ministro da Grã-Bretanha, do Presidente dos Estados Unidos e dos seus governos, existem outros responsáveis.

A Espanha e a Itália tiveram um papel de apoio que torna os seus governos da época responsáveis. Aznar em Madrid, e Berlusconi na Itália são altamente responsáveis pela sua contribuição para o desastre e para o drama humano que teve lugar no Iraque. Eles não aceitarão concerteza essa responsabilidade, mas as evidências estão aí.

Sílvia Cattori : Se a manipulação do Conselho de Segurança pelos Estados Unidos é o maior problema, e se estes últimos continuam a cometer crimes, sob o pretexto de terem um mandato das Nações Unidas, o que poderá ser feito para corrigir esta situação?

Hans von Sponeck : Penso que essa é uma questão muito importante e particularmente pertinente no quadro do debate sobre o tipo de Organização das Nações Unidas de que necessitamos para protegermos a comunidade internacional, para protegermos os 192 governos dos Estados membros, dos perigos a que certos governos os expõem ao abusar da sua autoridade, das sua informações, das suas finanças, do seu poder, para servirem os seus próprios interesses, ao mesmo tempo que vão contra os interesses da paz, da justiça, da humanidade.

Sílvia Cattori : Como é que reagiu à execução de Saddam Hussein e dos que com ele foram condenados à morte por um tribunal formado pelos Estados Unidos?

Hans von Sponeck : Digo-lhe desde já que não me surpreendeu. Era o objectivo final dos que estão no poder em Bagdad e dos que ocupam o Iraque. Não podemos defender Saddam Hussein, mas podemos levantar-nos contra o facto de ele não ter tido um julgamento justo, e de termos estado perante uma farsa. Foi um tribunal que, sob a aparência de respeitabilidade, mascarava a decisão preestabelecida de condenar os acusados à pena de morte. Saddam Hussein, como qualquer outra pessoa, tinha direito a um julgamento equitativo, e esse julgamento equitativo, ele não o teve, de facto. É claro que fiquei perturbado por essa evidência. Apesar de existir um direito internacional, apesar de as nações europeias, os Estados Unidos e o Canadá, bem como outras nações, afirmarem incessantemente que querem defender a justiça, na realidade, não o fazem.

Sílvia Cattori : Você interveio junto de Bush para pedir a libertação de Tarek Aziz. Chegou a obter uma resposta?

Hans von Sponeck : Não. Eu não obtive uma resposta. Escrevi essa carta porque conheci Tarek Aziz. O meu antecessor e eu tínhamos uma relação cordial com Aziz, considerávamos que ele era uma pessoa que – apesar do que se disse dele nos principais jornais – se preocupava com o povo iraquiano. Uma pessoa disponível e disposta a tomar em consideração propostas que visassem melhorias no programa de assistência humanitária.

Do nosso ponto de vista, do meu ponto de vista, ele era uma pessoa correcta. Eu não posso julgar o que Tarek Aziz fez no Iraque fora do meu domínio de responsabilidade mas tudo o que eu peço é que uma pessoa doente, nem que seja apenas por razões humanitárias, seja tratada dignamente; ela deveria ser autorizada a ter um acompanhamento médico e a beneficiar de um julgamento justo. Tarek Aziz tinha e tem direito – tal como Saddam Hussein – a ser tratado de acordo com o direito internacional, com as convenções de Haia e de Genebra. Eu oponho-me ao facto de, passados três anos depois da sua entrega voluntária às forças de ocupação, ainda não terem sido apresentadas provas contra ele, e que o mantenham na prisão, tendo necessidade de acompanhamento médico.

Sílvia Cattori : Agora que a situação criada pela ocupação do Iraque é aterradora, há um forte receio de que a resolução contra o Irão seja utilizada pelos Estados Unidos para atingir esse país. A marinha alemã – formalmente sob mandato da ONU – já se encontra no Mediterrâneo oriental. É por saber até que ponto o seu país está implicado nos projectos de guerra dos Estados Unidos que você, numa carta aberta, pede a Merkel que recuse qualquer recurso à força contra o Irão?

Hans von Sponeck : Exactamente. Eu vejo bem que, gradualmente, a Alemanha e outros países europeus são levados a seguir um caminho no sentido de uma política de potência definida em Washington por pessoas ávidas de poder. E essa situação torna-se cada vez mais grave, porque vendo que não conseguem sozinhos pôr em marcha a sua política de dominação, eles procuram o apoio de outros governos; ora, esses governos parecem ser da Europa Central e da Europa de Leste, entre a Lituânia e a Grã-Bretanha. Além disso, procuram também politizar a NATO para a utilizarem como um instrumento, que ela já é em grande medida, ao serviço dos Estados Unidos. Daí que eu, como qualquer indivíduo normal neste mundo, não possa aceitar as tentativas – apoiadas pela chanceler Merkel, por ocasião da recente cimeira da NATO – que visam dar a essa aliança militar uma missão política. A NATO é um instrumento da Guerra Fria; desde há muitos anos que se lhe procurava dar uma nova missão, um novo papel. A única coisa que os membros da Aliança sabiam é que ela tinha uma responsabilidade militar, e que com o fim da Guerra Fria na Europa, essa responsabilidade deixava de existir, não era mais necessária. Daí esta procura desesperada de um novo papel.

Pessoalmente, considero extremamente perigoso que a NATO se apresente actualmente como um instrumento democrático ao serviço das democracias ocidentais, quando, na verdade, se trata de um instrumento nas mãos dos Estados Unidos para pôr em marcha o Projecto para um novo século americano. Estamos perante essa famosa declaração feita pelos neoconservadores estado-unidenses nos anos noventa – que a administração Bush converteu em estratégia nacional de segurança para o ano de 2000 e seguintes – para a realização da qual se espera que a NATO contribua. Os responsáveis políticos reunidos recentemente em Munique deveriam ter recusado essa tese [2].

Vladimir Putin, que pela primeira vez não mastigou as suas palavras , expressou abertamente o que muitos entre nós ressentem. Evidentemente que as suas declarações foram rejeitadas por aqueles que têm uma outra agenda. Ora, o que Putin disse recupera uma realidade.

Estou persuadido de que, por causa da politização militarista da NATO, um grande passo terá sido dado, não apenas no sentido de um retorno a uma atmosfera de guerra fria entre as principais potências, mas igualmente, e esse é que é o drama, no sentido de um crescimento das despesas em matéria de defesa, China, Rússia e países da Europa Ocidental incluídos. Despesas que são já bastante elevadas em numerosos países; o que não pode contribuir senão para uma escalada da polarização entre os diferentes grupos no mundo.

O mundo, fora da Europa Central e dos Estados Unidos, já não está mais disposto a aceitar uma via ocidental de sentido único. O público já não aceita mais os pedidos das potências políticas e militares do século passado. Esses dias já estão ultrapassados e, se não tomarmos isso em conta, as coisas agravar-se-ão.

Para mim, a palavra-chave do momento é: diálogo e diplomacia. É com um espírito claramente multilateral que se deve avançar, e não com um espírito de super potência que, nos seus actos, já não o é, nem economicamente, nem politicamente, nem moralmente de certeza, já para não dizer eticamente.

Ainda que reste aos Estados Unidos um pouco da sua super potência graças à sua força militar, essa não será suficiente para salvar a Pax Americana. A Pax Americana é uma coisa do passado e, rapidamente reconheceremos isso na Europa e mais rapidamente prepararemos uma cooperação multilateral – ou seja, uma outra coisa que não uma cooperação bilateral ou do tipo NATO – o melhor que se possa.

Sílvia Cattori : A NATO participa em guerras de ocupação – o que está em contradição com a sua Carta – e leva a cabo, juntamente com a CIA, operações criminosas: estou a pensar, por exemplo, na questão do transporte e das transferências de suspeitos para prisões secretas. Se a Europa continua rebaixar-se e aceita a instalação de sistemas anti-mísseis estado-unidenses dentro de países membros da NATO, será que isso não irá conduzir ao confronto, ou mesmo ao retorno dos piores dias da Guerra Fria?

Hans von Sponeck : É uma insensatez. Não há nada que possamos defender, e o argumento de Condoleezza Rice, segundo o qual a Rússia não teria razões para se inquietar com a questão da instalação de dez sistemas anti-mísseis posicionados na Polónia e na República Checa, é absolutamente desonesto, porque se podemos hoje instalar dez, nada impede que sejam instalados vinte amanhã. O simples facto de esses sistemas anti-mísseis estarem posicionados na fronteira da antiga URSS, ou da Rússia, já é o suficiente para intensificar as razões de confronto entre a Rússia e o Ocidente; sem falar na China. Nós estamos a criar, a modelar, o nosso inimigo de amanhã. Eu, e muitas outras pessoas neste mundo, não podemos aceitar essa evolução. Mas nós não contamos, somos fracos, somos considerados uns ingénuos, "gente de olhos azuis" como dizem os estado-unidenses, não esperam que tenhamos e compreendamos a visão global.

Se nós vivemos numa democracia, então eu tenho o direito de compreender essa visão global, mas ninguém me diz nada, apenas me pedem que me submeta à boa vontade e às boas intenções de um governo como o de Washington. Ora, eu não posso fazer isso, nós não podemos fazer isso, porque fomos enganados tantas e tantas vezes pela sua desinformação, pela sua desonestidade brutal, por um poder político ao serviço de um único partido. Estou longe de aceitar tudo isso, e considero o conjunto dessa política, que visa convencer os governos checo e polaco a abrigar sistemas anti-mísseis, extremamente perigoso e deslocado. Não passa de uma grosseira e brutal política de potência, da qual não temos necessidade e a qual devemos combater. Isso não é o que a paz, o futuro internacionalismo e a consolidação das nações e do progresso, no espírito da Carta das Nações Unidas e de outras leis internacionais, precisam.

Sílvia Cattori : Você esteve em Kuala Lumpur em Fevereiro para participar numa conferência que denunciava os crimes cometidos pelas potências militares. Não houve, nos nossos meios de comunicação social, cobertura desse importante acontecimento. Se tais encontros, que denunciam os desvios da NATO e as violações da Carta das Nações Unidas, são ignorados, como fazer para que se possa abrir um debate para reformar essas instâncias? Não sente que está a pregar num deserto?

Hans von Sponeck : Sabe, não nos devemos desencorajar só porque os meios de comunicação social nos ignoram. A maioria das vezes, quando cidadãos tentaram convencer os seus dirigentes a mudar de direcção, estes últimos ignoraram-nos. Isso deveria pôr um fim aos nossos esforços? Não me parece. O facto de pessoas, não loucos, não sonhadores perdidos, mas pessoas muito realistas que têm grandes visões sobre o mundo, que compreendem os processos políticos, se reunirem para debater seriamente as condições e os abusos do poder – isso é uma prova importante de que a consciência internacional está viva, de que a consciência internacional existe. Kuala Lumpur não fez manchete; Hollywood faz manchete, a emoção barata e os acontecimentos mediáticos de reles qualidade, como o programa Big Brother em Londres, fazem manchete.

Que o facto de cinco mil pessoas se terem reunido em Kuala Lumpur para discutir a guerra como um crime, sobre o pano de fundo de todo o sofrimento que essas guerras ilegais causaram, não tenha sido objecto de manchete é certamente lamentável, contudo isso não deve tornar as pessoas menos desejosas de se expressarem. Isso deverá ter sido notado por aqueles que se preocupam com esses crimes e pelos que são directamente lesados pelos crimes.

Cada um de nós, enquanto indivíduo, tem uma responsabilidade a assumir, a de dar a conhecer os nossos pontos de vista. O encontro de Kuala Lumpur, eu tenho a certeza, permitiu o desenvolvimento de uma maior consciência em numerosos círculos pelo mundo, o que irá finalmente resultar numa maior resistência contra essas políticas enganadoras, egoístas e unilaterais que o Ocidente procura impor.

Não assumo uma posição contra o Ocidente, eu sou um "ocidental", mas isso não significa que não possa analisar com um olhar crítico a via de sentido único que se desenvolveu, a auto-estrada de sentido único na qual circulam o poder internacional, o comércio internacional, a cultura internacional. Esta situação, como já referi, não pode continuar porque já não é aceitável, e Kuala Lumpur reuniu pessoas vindas do mundo inteiro que partilham desta mesma preocupação. Estou certo de que esta conferência permitiu aumentar a consciência e a vontade dos participantes em reunir cada vez mais forças para mudar as coisas. E se isso não produziu manchetes, nem uma mudança imediata, poderá fazê-lo amanhã, e se não for amanhã, será no dia seguinte.

Silvia Cattori : Vozes como a do presidente Jimmy Carter e de John Dugard que denunciam os crimes de Israel na Palestina, vozes como a de Dennis Halliday [3] e a sua que denunciam os desvios da ONU no Iraque – todas essas vozes se revestem de um respeito imenso. Todavia, são vozes raras que os poderes podem marginalizar. Não se sente desiludido com o facto de, ao seu nível, não haver quase ninguém, ou tão poucos, que sigam o seu exemplo e tomem posição contra os crimes e abusos dos Estados?

Hans von Sponeck : Claro que me sinto desiludido. Sabe, estes dias, todos os dias, espero ansiosamente que um general americano de primeiro plano, que um político americano de primeiro plano, diga: basta! Não quero continuar a apoiar esta loucura, não vou mais apoiar esta ilegalidade, não vou apoiar os políticos que nos mergulharam em profundas dificuldades e em profundas violações de tudo o que uma pessoa civilizada deveria defender. Claro que uma pessoa se sente desiludida; mas tendo em conta o que aconteceu no decurso destes últimos decénios, particularmente durante estes anos sob o poder de Bush, não nos podemos permitir ser ineficazes. É um apelo que devemos fazer ao movimento internacional anti-guerra.

É preciso que o movimento de paz se oriente no sentido de uma melhor coordenação, uma rede; no sentido de um maior número de esforços combinados, de declarações comuns em que pessoas de todos os países do mundo dêem as mãos e demonstrem, a si mesmos e ao público mais vasto, que têm a firme intenção de não aceitar o que nos conduziu até aqui: a um mundo em que o fosso é colossal entre os que nada têm – que é uma vastíssima maioria, mais de um milhão de seres humanos, entre os seis milhões que comporta o nosso planeta, sobrevivem com um dólar por dia – e os dez por cento mais favorecidos que vivem num luxo e num bem-estar inimaginável.

Isso não pode durar mais. E se as pessoas que ouvem a nossa conversa dizem: "eis mais um ingénuo", ou "um comunista, é terrível, ele reclama a igualdade para todos"; eu digo-lhes que não sou nada disso. Em primeiro lugar, não sou de certeza ingénuo, em segundo, não sou comunista no sentido tradicional. Sou um homem que, ao fim de 32 anos nas Nações Unidas, aprendeu a aceitar o facto de não sermos todos iguais, mas também que todos deveríamos ter as mesmas hipóteses de desenvolvimento num quadro de contributos para a paz. Não é uma questão de falta de dinheiro, há muito dinheiro para todos, o que nos falta é uma vontade de partilhar os recursos e de fazer mais do que apoiar simplesmente em palavras esse magnífico conjunto de instrumentos que foi criado depois da Segunda Guerra Mundial, por pessoas respeitáveis, que ao longo de sessenta anos, tentaram lançar as bases para uma maior justiça e progresso socioeconómico para todos.

Sílvia Cattori : Todas essas esperanças que alimenta devem fazê-lo sofrer ainda mais, no sentido em que você está consciente de que, para os povos de religião muçulmana que as grandes potências actualmente humilham, o pior ainda está para vir?

Hans von Sponeck : Claro. Não há dia em que, quando leio ou observo o que se passa no Médio Oriente, não me sinta cheio de vergonha, em que não sinta a exigência de humildade para com essas pessoas pobres que sofrem terrivelmente, desde a Palestina ao Iraque, bem como noutras regiões do Médio Oriente. A linguagem humana, pelo menos para a minha sensibilidade, não é capaz de expressar os sentimentos que experimento.

É horrível. Eu venho de um país que teve a experiência, e foi a causa, de uma grande e horrível Segunda Guerra Mundial. Ela durou cinco anos e ainda se fala nela. E o que é feito com tudo o que sucedeu no Iraque durante todos estes anos, trinta anos de ditadura, treze anos de sanções, três anos e meio de ocupação? Quanto é que um indivíduo pode suportar, quanto é que uma nação pode suportar? Quando vemos – estou a pensar agora nas universidades de Bagdad que eu conheço, como por exemplo, Mustanseriya University, Baghdad College, Baghdad University – que essas instituições que preparam jovens inocentes para a vida estão destruídas por bombas! E pensar que quando eu ia visitar esses iraquianos, eles viviam pacificamente em bairros que integravam diversas populações, e nunca ouvi essas conversas de "Eu sou xiita, tu és sunita, e tu és turcomano".

Bagdad é a maior cidade curda do mundo, com mais de um milhão de curdos, e é claro que havia muitos problemas, havia um ditador, havia assassinatos políticos mas, comparado com o que vemos hoje, isso não era nada. O confronto sectário que existe agora foi criado por uma guerra ilegal. E as ameaças dirigidas ao governo de al-Maliki são o cúmulo da desonestidade: "Se não repuserem a segurança no Iraque, então nós, os americanos, iremos reexaminar em que medida iremos continuar a apoiar-vos". Mas o que é isso? Quem criou esse tipo de condições? Quem são os responsáveis por esse caos e pelo confronto sectário actual?

Sílvia Cattori : Os países ocidentais condenam o Irão, que assinou o Tratado da não proliferação nuclear, por causa de uma bomba nuclear que ele não tem; mas não condenam Israel que não assinou esse tratado e que dispõe de armas nucleares. Entre Israel, que não esconde que se prepara para levar a cabo uma guerra nuclear preventiva, e o Irão que se quer dotar de uma indústria nuclear civil – será que aquele que ameaça realmente a paz mundial não é Israel, e o Irão, o alvo? Como é que reage perante esta injustiça?

Hans von Sponeck : Tenho uma resposta muito directa, que é no fundo a ilustração clássica dos dois pesos, duas medidas. A Resolução 687 do Conselho de Segurança, datada de Abril de 1991, chama a atenção, no seu parágrafo 14, para a criação de uma zona desnuclearizada no Médio Oriente. Israel nem sequer assinou o Tratado de não proliferação. O Irão pode ter intenções que vão contra os interesses internacionais, mas o Irão ainda não passou a linha vermelha. El Baradei, o director da Agência Internacional de Energia Atómica, não disse que o Irão tinha passado essa linha. Ele limitou-se a dizer que o Irão não tinha revelado completamente, de maneira suficientemente transparente, as suas intenções, e que tinha posto a funcionar as suas novas centrifugadoras.

Mas que extraordinária demonstração de dois pesos, duas medidas, essa de não apontar o dedo a Israel e a outros países! Então, e o Paquistão, e a Índia? E os próprios Estados Unidos que trabalham abertamente numa nova geração de armas nucleares, violando por completo o Tratado da não proliferação, do qual eles são os fundadores. Temos aqui uma situação catastrófica de dois pesos, duas medidas. Se eu fosse iraniano, eu diria: lamento, peguem na medida que vocês afirmam ser a norma e, depois, poderemos discutir, todos à volta de uma mesa, ao mesmo nível, e sem condições prévias.

Eu aprovo o justo pedido iraniano de diálogo; penso que é a coisa mais justa a fazer. O Irão diz: vocês têm um desacordo, muito bem, vamos encontrar-nos para conversar, mas não me venham dizer que, antes de nos encontrarmos, eu devo ter cumprido determinadas decisões que vocês me querem ver cumprir; nós viremos, encontrar-nos-emos, discutiremos, e colocaremos as cartas na mesa. E o que constatamos é uma assustadora tentativa de proteger a lei dos dois pesos, duas medidas.

Sílvia Cattori : Que mensagem gostaria de fazer ouvir aos dirigentes políticos que não fazem caso dos direitos humanos e levam a cabo guerras que violam o direito internacional? Que mensagem gostaria de dar às populações expostas à ocupação e ao terror dos Estados? Que mensagem gostaria de transmitir a todos os que se opõem a estas guerras, mas não sabem como pará-las e ficam desolados com a inacção dos partidos?

Hans von Sponeck : Aos que violam os direitos humanos, eu diria: vocês deviam viver com a vossa própria consciência, no entanto, como é que vocês poderiam, à luz de todos estes danos evidentes, viver com a vossa consciência? Será que não são capazes de pensar em outros meios de proteger os vossos interesses, permitindo aos outros beneficiar das oportunidades existentes?

Àqueles que são vítimas e aos que se preocupam, eu diria: nunca se rendam, façam o vosso melhor, todos somos livres, como indivíduos em posse plena das nossas faculdades, de dar a nossa contribuição, por mais pequena que ela seja, se nos juntarmos para esse fim, se cooperarmos, se unirmos as nossas forças, se dermos a conhecer a nossa opinião aos que estão no poder. Se utilizarem os vossos direitos de voto – para vocês que vivem em países com eleições livres – não votem mecanicamente, pois o vosso boletim dentro da urna é um grande acto de responsabilidade. Vão ao encontro dos vossos representantes eleitos, pressionem-nos, responsabilizem-nos, verifiquem os seus actos e, quando houver ocasião de reeleição, se não estiverem satisfeitos, encorajem os que mereceram a vossa confiança a apresentar-se para um novo mandato. O que mais podemos fazer?

Silvia Cattori



[1A Different War: The UN Sanctions Regime in Iraq. Berghahn Books 2006, ISBN 1845452224 (pode encomendar através deste link).

[2"La Russie appelle les Européens à quitter l’OTAN", por Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 9 de Março de 2007.

[3Dennis Halliday, antigo sub-secretário geral e coordenador das operações humanitárias no Iraque, antecessor de Hans von Sponeck, demitiu-se em Setembro de 1998, em sinal de protesto contra as sanções. "Nós estamos em vias de destruir uma sociedade inteira (…). É ilegal e imoral", declarou ele. A sua demissão foi seguida pela de Hans von Sponeck, e dois dias mais tarde, pela de Jutta Burghardt, responsável pelo Programa Alimentar Mundial, que se associou às declarações dos dois primeiros.