political writings

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Um artigo de Ghaleb Kandil
As desgraças de Erdogan

Abundam na imprensa turca, nestas últimas semanas, os artigos, informes e investigações que refletem o exorbitante custo político e económico, e inclusive em matéria de segurança, que a Turquia está pagando por causa da ingerência do governo de Recep Tayyp Erdogan na Síria.

10 de Outubro de 2012

No plano económico, as exportações turcas para a Síria caíram, de 1 400 milhões de dólares antes de março de 2011, para só 300 milhões neste momento. Milhares de fábricas e empresas criadas nas zonas francas da fronteira entre ambos países fecharam as suas portas. O parque de veículos pesados de carga por estrada utilizado para garantir o comércio através de Síria está paralisado pela inactividade. O transporte de mercadorias até aos países árabes por via marítima ou aérea é muito mais oneroso, o que priva os produtos turcos do seu principal trunfo em matéria de competitividade.

Essas perdas estão a afetar amplos sectores da sociedade turca que não tem sido convenientemente indemnizados nem tem encontrado novas oportunidades. Os actores económicos e financeiros turcos temem uma intervenção militar do seu país na Síria, intervenção que teria consequências negativas para o sector turístico já que uma guerra entre Turquia e Síria implicaria seguramente o uso de misseis de longo alcance por parte de ambos os contendores.

Erdogan e o seu ministro de Relações Exteriores, Ahmet Davutoglu, desenvolveram além disso um discurso abertamente sectário para exacerbar as tensões dentro da Síria, acentuando por sua vez as divisões dentro do seu próprio país.

Muito embora os danos provocados na Síria por esse discurso sejam limitados já que o sentimento patriótico dos sírios impediu uma fratura que pudesse ter sido irremediável, a situação na Turquia é muito diferente. Sectores políticos, inclusive no seio do Partido da Justiça e Desenvolvimento do próprio Erdogan, emitiram advertências sobre o perigo que implica a exacerbação das tensões num país onde alauitas e alevitas são 20% da população.

Ante estas realidades, começa a ampliar-se o movimento popular contra a política de Erdogan em relação à Síria, o que se reflete na multiplicação das manifestações, a publicação de comunicados e a subscrição de petições, como ferramentas de pressão contra o seu governo.

Essa situação obrigou as autoridades turcas a deslocar os acampamentos de refugiados da região de Alexandreta (Iskenderun), cuja população – de origem síria – sai às ruas a manifestar-se carregando retratos do presidente sírio Bachar al-Assad.

Foi também por essa razão que Ancara pediu à direcção do chamado Exército Sírio Livre que saísse de território turco. Ainda que os chefes da Irmandade Muçulmana e do Conselho Nacional de Transição se mantenham em Istambul, os seus meios queixam-se da «frieza» que vêm encontrando desde há algum tempo nos seus contactos com os responsáveis turcos. Esses mesmos opositores sírios queixaram-se das suas desgraças aos periodistas ocidentais.

O tema curdo constitui o maior dos perigos que enfrenta o governo de Erdogan. A Síria e a Turquia compartilham uma fronteira de 800 quilómetros, dos quais 600 se estendem através de um território que conta com uma grande população curda de ambos lados da fronteira. Isso significa que, na Síria, os comités populares armados curdos se encontram agora frente às posições do exército turco enquanto os combatentes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) estão muito activos do lado turco da fronteira, onde o exército da Turquia tem sofrido baixas sem precedentes. Encara-se novamente a retoma das negociações entre Ancara e o PKK. Ao mesmo tempo, fracassaram todos os intentos de levar os curdos da Síria a pegar em armas contra o governo desse país.

Como dizemos em árabe, «o que prepara o veneno é o primeiro a bebê-lo». E, isso é o que se tem passado com Erdogan, enredado agora num sem fim de problemas domésticos por ter conspirado contra a Síria.

Declarações e posições

Vladimir Putin, presidente da Rússia

«Os nossos parceiros ocidentais não conseguem parar. Depois de terem semeado o caos em numerosas regiões prosseguem a mesma política noutros países, especificamente na Síria. A nossa posição consiste em estimular as mudanças positivas em todos os países. Não se trata de impor – especialmente pela força – o que cremos justo, mas sim de estimular o desenvolvimento interno. Temos advertido que há que actuar com precaução, sem impor nada pela força, para não provocar o caos. E o que é que vemos hoje? Vemos uma situação próxima do caos.»

Jean Kahwaji, comandante em chefe do Exército libanês

«O exército conseguiu acabar com o terrorismo em Nahr el-Bared e logrou colocar em prática a resolução 1701 do Conselho de Segurança [da ONU] no sul do Líbano. Com a cooperação da FINUL, [o exército libanês] esforça-se, com os poucos meios de que dispõe por manter a segurança na fronteira e no interior do país. Conseguiu conter os enfrentamentos em Trípoli, controlar a fronteira com a Síria e por fim aO tráfico de armas. O Líbano continua enfrentando as ambições israelitas, as consequências dos acontecimentos na Síria, as manobras das organizações terroristas. O papel do exército é preservar a democracia e a liberdade no Líbano. Prometo-lhes que não haverá marcha atrás.»

Ghaleb Kandil
New Orient News (Líbano)
Editor-chefe: Pierre Khalaf
Tendances de l’Orient No 102, 1 de outubro de 2012.