political writings

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O vice-primeiro­‑ministro palestiniano raptado por soldados israelitas
Tasneem Shaer : «O meu pai não é um terrorista»

O vice-primeiro­‑ministro palestiniano, Naser Shaer, foi raptado no dia 19 de Agosto por soldados israelitas. Há algumas semanas, a Rede Voltaire publicou uma entrevista exclusiva com esta personalidade bastante respeitada pelos palestinianos (*). Naser Shaer, de 45 anos, tornou­‑se vice-primeiro­‑ministro e ministro da Educação no novo governo palestiniano formado pelo Hamas em Março de 2006. Antigo reitor da Faculdade de Direito da Universidade Nacional de Al Najah em Nablus, Shaer é uma pessoa moderada. Não pertence a nenhum partido político, e não é membro do Hamas como foi espalhado nos meios de comunicação social. Tasneem (**), a sua filha mais velha, dá-nos, de uma forma simples e sóbria, um relato do rapto de Shaer e das más e humilhantes condições da sua detenção.

28 de Agosto de 2006

Silvia Cattori : Estava presente quando 30 veículos militares israelitas cercaram a casa do Sr. Shaer e o levaram? Que pretexto usaram os soldados israelitas para justificar este rapto, e que lhes respondeu o Sr. Shaer?

Tasneem Shaer : Eram quatro horas da manhã quando os soldados israelitas cercaram a nossa casa de dois andares, e começaram a bater à porta depois de terem acordado os nossos vizinhos. Abri a porta e o oficial israelita ordenou a todos que saíssem, dizendo mesmo à minha mãe para acordar a minha irmã de 9 anos e o meu irmão de 7 anos, sem se incomodar com a hora que era. O oficial fez perguntas ao meu pai sobre o seu trabalho e sobre que fazia, por isso o meu pai respondeu: «Sou o ministro da Educação e do Ensino Superior e o meu trabalho consiste em velar pelo bom andamento das escolas e das universidades na Palestina».

Depois de ter examinado o seu bilhete de identidade para se assegurar de que se tratava da pessoa certa, o oficial e seis ou sete soldados deram ordem aos meus irmãos, às minhas irmãs e a mim, de ficar na sala com três outros soldados que erguiam e nos apontavam os seus fuzis. Os soldados levaram os meus pais para que lhes mostrassem as outras salas da casa para verem se podiam encontrar alguma coisa que pudesse ser utilizada contra o meu pai nas suas investigações. Mas, como o meu pai é um universitário normal que se interessa pelo conhecimento e pela educação, não encontraram nada contra ele.

Depois disso, o oficial disse à minha mãe que tinham de levar o meu pai, sem dizer porquê, e sem mesmo nos dizer para onde o levariam. Mas o que nos pareceu mais chocante, foi quando eles saíram do edifício, olhámos pela janela e vimos que os soldados israelitas tinham vendado os olhos do meu pai e atado as suas mãos atrás das costas, antes de empurrá-lo para dentro de um dos seus veículos.

Silvia Cattori : Desconhecido no estrangeiro até esse dia, o rosto do Sr. Shaer apareceu de repente nos ecrãs de televisão e nos jornais de todo o mundo. O porta-voz militar israelita apresentou esta operação como fazendo parte da «luta contra a organização terrorista Hamas». A sua família apresentou alguma queixa ao governo israelita que deu a entender que o Sr. Shaer seria membro de uma “organização terrorista”?

Tasneem Shaer : O meu pai, Naser Shaer, é conhecido como um homem muito moderado que entrou no governo como independente. Foi escolhido para ser ministro no novo governo palestiniano porque é conhecido como uma pessoa de um nível de formação elevado, titular de um grau de doutoramento, e antigo professor universitário. O que o convenceu a aceitar tal função é a sua vontade de desenvolver a Educação na Palestina e de permitir a outros adquirir conhecimento, e é por isso que é ministro da Educação e do Ensino Superior. Assim, a minha família não é o único grupo que afirma que o meu pai não é um terrorista, não é um membro do Hamas. Na Palestina, todas as pessoas estão de acordo sobre isso; para elas é um facto inquestionável.

Silvia Cattori : Agências de imprensa como a AFP, por exemplo, escreveram: «Os soldados israelitas prenderam (…) Naser Shaer, membro do Hamas». E, com base nisto, todos os meios de comunicação social o repetiram. Pediram à AFP que rectificasse esta afirmação errada?

Tasneem Shaer : Bem, gostaria de recordar a qualquer agência de imprensa que cobre o que se passa na Palestina que a principal regra ética do jornalismo é não enviesar os factos e não tomar partido; em vez disso, qualquer jornalista deveria ser preciso quando cobre os acontecimentos em todo o mundo e deveria ouvir todas as partes envolvidas no acontecimento coberto.

Mas o que vemos aqui, na Palestina, é que a maior parte das agências de imprensa relata apenas as palavras que saem da boca do governo israelita, sem se preocuparem com a outra posição, que é a palestiniana.
Se tais agências fossem verdadeiras agências, então respeitariam as normas éticas do jornalismo. Creio que, se estas agências se tivessem informado a respeito de Naser Shaer, teriam descoberto que o que Israel disse a seu respeito é absolutamente falso e que são apenas declarações que visam justificar o seu rapto.

O meu pai é uma pessoa conhecida, entre todos os que se relacionaram com ele, como um intelectual moderado e dispondo de uma grande bagagem de conhecimentos. Não é apenas conhecido entre os árabes, mas também entre os intelectuais e os universitários dos países ocidentais. Então, apelo a todos os que continuam a repetir as afirmações israelitas, a informarem-se a respeito do meu pai e a ler os livros que escreveu sobre a paz e sobre o estudo comparativo das religiões.

Silvia Cattori : Poderia este abuso israelita ser considerado uma “detenção” e apresentado como sendo uma detenção normal e legal? De acordo com o direito internacional, o rapto e a detenção arbitrária não são crimes? O Sr. Shaer e todos os outros ministros e deputados raptados pelos israelitas não devem ser considerados como pessoas sequestradas?

Tasneem Shaer : “Detido” é uma palavra utilizada para referir-se a um criminoso que violou a lei ou que cometeu um acto que perturbou a segurança e a paz de outras pessoas. Mas tal descrição não corresponde aos actos e à personalidade do meu pai.

Sabe-se também que o meu pai é ministro num governo que resultou de eleições que foram descritas pelos observadores internacionais, incluindo os americanos, como tendo sido totalmente justas, equitativas e limpas.

Este testemunho faz do meu pai e de todos os seus colegas no governo e no Conselho Legislativo, pessoas que são ministros legítimos e membros do governo que têm protecção internacional de acordo com o direito internacional, que os Estados Unidos e os seus aliados declaram defender.

Isto faz do acto de prender o meu pai, às quatro horas da manhã, enquanto dormia entre os membros da sua família, um rapto e não uma detenção como Israel tenta fazer crer. Isto leva­‑me a dizer que Israel é um país que põe todas as leis internacionais para trás das costas e que mata e rapta qualquer pessoa que tenha nacionalidade palestiniana, e creio que tais acções não podem ser negadas porque as câmaras mostram tudo e não mentem.

Silvia Cattori : O Sr. Shaer tomava, ultimamente, menos precauções que anteriormente? É a primeira vez que a sua família é confrontada com uma situação tão difícil? Desde a noite do seu rapto, tiveram notícias dele? Onde se encontra? É bem tratado?

Tasneem Shaer : O meu pai começou a tomar precauções quando os soldados israelitas vieram pela primeira vez e raptaram os outros ministros de Ramallah, mas ele não estava em casa dessa vez. Durante menos de uma semana, dormia fora de casa e mudava de lugar quando sabia que veículos israelitas entravam na cidade, mas continuou a ir ao ministério e a dirigi-lo todos os dias. Mas isto não durou; como disse, após menos de uma semana, retomou o seu estilo de vida normal; voltou a dormir em casa com a sua família e, quanto às suas funções, não parou de todo.

O meu pai sempre nos disse que Israel só se interessa em impedir os palestinianos de viverem livremente e que isto lhe permitiria fazer qualquer coisa, mesmo raptos.

Acreditava que era inteiramente livre e que não fazia absolutamente nada que pudesse voltar­‑se contra ele se fosse encarcerado por Israel, por isso pensava que não tinha necessidade de fugir ou esconder-se. Porque deveria fazê-lo? Tudo o que ele faz é aceitável em todo o mundo, e está sempre pronto a desafiar qualquer pessoa que afirme o contrário.

O meu pai já tinha sido raptado anteriormente, no dia 7 de Outubro de 2005, e Israel tinha justificado esse acto afirmando que as pessoas, na Palestina, diziam que o meu pai ia provavelmente apresentar­‑se às eleições legislativas como candidato do Hamas. Mas estas declarações revelaram­‑se falsas e baseadas em rumores e, assim, tiveram de libertá-lo sem serem capazes de condená-lo.

Quanto às notícias sobre ele, o meu pai foi levado para uma prisão chamada Kfar Yona. É uma prisão destinada a criminosos israelitas. Os Israelitas puseram-no numa cela isolada de um metro por dois, sem janelas, muito mal iluminada, e sem alguém que fale árabe. A alimentação que lhe dão é muito má. Não tem televisão para ver, rádio para ouvir ou livros para ler. Nem sequer sabe qual é a hora ou a data.

No que diz respeito ao tratamento, nenhum palestiniano é bem tratado nas prisões israelitas, e que tratamento pode uma pessoa ter em condições tão desastrosas? Na quinta­‑feira 24 de Agosto, o meu pai foi conduzido a um tribunal militar, e decidiram remeter o seu caso para o final do mês, porque a Agência de Informações israelita não foi capaz de provar que era culpado seja do que for, apesar do facto de ter estado em prisão durante 6 dias sem que houvesse investigação sobre ele.

Silvia Cattori : Ver um batalhão de soldados israelitas entrar em Ramallah para matar e raptar pessoas é algo que é habitual na Palestina. Mas o rapto de um ministro pacífico de um governo eleito é algo muito controverso. Como reagiu a diplomacia? Que Estado condenou Israel pelo rapto do Sr. Shaer?

Tasneem Shaer : O rapto do meu pai foi condenado por diversos países árabes, europeus e muçulmanos. O Egipto, a Jordânia, o Qatar e outros países árabes condenaram o acto, enquanto a França foi o primeiro país europeu a afirmar claramente que rejeitava este acto e o considerava totalmente inaceitável.

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Silvia Cattori

(*) Silvia Cattori, Naser Shaer: “Os palestinianos estão unidos frente às sanções”. Entrevista com o vice­‑primeiro­‑ministro palestiniano. Voltaire, 04/08/2006.

(**) Tasneem Shaer tem 20 anos e estuda Língua e Literatura Inglesa na Universidade de An-Najah de Nablus.

Versão em português: Informação Alternativa
http://infoalternativa.org/moriente/mo068.htm